domingo, 14 de junho de 2009

Fila, Fernanda Montenegro e uma porção de bobagens...

Cuidado, nem tudo é o que parece. Não levem a ferro e fogo o despretensioso título. Quem sou eu para falar algo da atriz talentosa que é Fernanda Montenegro. Sou só mais uma atriz com muito a aprender... Mas enfim achei tão absurdo o descaso e a desorganização quanto a peça “Viver em Tempos Mortos”, que fui investigar na tão aclamada era digital o que poderia estar acontecendo. O SESC é palco de visões e reflexões maravilhosas que tive a oportunidade de viver em minha vida. Mesmo quando a sede de muitos em ver espetáculos, como “Hamlet”, “Fragments” do Peter Brook, “Woyzeck, o brasileiro” do Mateus Nachtergaele, “A Paixão segundo G. H.” da Mariana Lima, “A morte de um caixeiro viajante” do Marco Nanini, dentre tantos outros que se esgotavam os ingressos e conseguíamos entrar numa fila de espera organizada e respeitosa.
Com toda minha verdade para cobrarem um ingresso de R$30,00 e ter que passar por tudo isso, antes o ingresso fosse de R$100,00 com um grande pesar no bolso, do que a falta de delicadeza que tive que enfrentar para conseguir adentrar a platéia. A fila enorme dos que não tem ingresso é tratada pelos representantes da instituição como situação essa que foge ao controle e, portanto responsabilidade de cada um ali presente de entrar ou não, mas como eu posso me responsabilizar por algo que nem consegui ter acesso, fui eu que quis trazer Fernanda Montenegro para tal teatro?
Eu tentei por duas vezes entrar na referida peça, o desconforto é observado nas duas vezes em que lá estive, sendo que na primeira vez do domingo dia 7 de junho me deparei até com “cidadãos cambistas” que queriam me vender o ingresso pago a R$15,00 por R$50,00. Uma simpática senhora presente na fila em que eu estava foi tentar obter informação de como fazer para entrar no recinto e foi enxovalhada de respostas grosseiras tais como não tenho nada a ver com isso, o problema é seu... Para piorar toda a tensão, nesse dia a peça tinha começado e ninguém teve a decência de avisar-nos tal fato, se tratava de 18 horas e 15 minutos e lá continuávamos no inverno incessante de São Paulo a espera de diria “Godot”, a descrença era tamanha que todos, inclusive eu, permanecíamos na fila a espera de uma solução. De repente fomos tomados por uma angústia abrupta e seguimos nossos rumos.
Voltei lá no dia 12 de junho, depois de um feriado, como minha teimosia e desejo me movem, e quanto mais obstáculos criam mais eu acredito estava eu lá novamente. Cheguei às 18 horas, admito um pouco cedo, mas pecar pelo excesso e nunca pela falta, nesse caso é melhor a fazer, estava tão frio que decidi entrar no SESC Consolação a espera de calor, checava se haviam chegado mais alguém na fila para me fazer companhia e nada. Quando às 17 horas e dez minutos resolvo descer, duas pessoas na minha frente na fila, coisas do destino, fazer o quê? Tomei meu posto lá e permaneci em meio a tanta graça, pois se vocês tinham alguma dúvida eu vos confirmo, brasileiro adora uma fila. O pessoal que tinha ingresso vinha-nos perguntar se ali era a fila para entrar, e no maior clima de esperança respondíamos que sim caso ele quisesse-nos vender o ingresso. Uns quarenta minutos antes de começar a peça fomos surpreendido com um pedido para que deixemos portão de entrada livre, mas poxa vida a entrada era tão grande, precisaria exatamente daquele pedacinho. Enfim no maior ar de incertezas acatamos a desalmada instrução.
É claro que existem os espertos, e como tal furam a fila... Eu não sou boa para esse tipo de briga, o fato é que realmente uma moça adentrou a fila depois de eu chegar lá, mas deixa pra lá... Logo em seguida chegou uma mulher e um homem, daqueles que não perdem o espírito da infância, ela atriz, ele eu não sei, mas talento tinha viu... Essas pessoas faziam graça a tortuosa espera, pois nos divertiam com uma sacadas que com certeza se quisessem viraria peça. A situação era tão constrangedora que o SESC nos fazia questão de lembrar-nos a todo momento. A solução encontrada era brincar com tudo aquilo, às vezes passavam pessoas, que digamos assim expressavam um quesito mau gosto para suas vestimentas, deixo claro na nossa visão, pois provavelmente elas deveriam ter saído de casa se sentindo lindas... Que o amável rapaz brincava essa não deixa entrar não, está vestida inadequada para o recinto, dentre tantas outras e com tanta graça que entrar já deixara de ser o primeiro objetivo... Mas dentro do possível lutávamos pelo o que queríamos e o melhor nos divertíamos.
Eu entrei e tantos outros não, isso me deixa triste. Pois sei que lugares haviam, pois contei ao meu redor 12 fora os que não tive coragem de olhar tamanho meu desgosto. Eu voltei a porta do hall de entrada para avisar aos que lá ficaram, mas foi em vão, lá eles permaneceram. Muitas daquelas pessoas poderiam ali terem visto um espetáculo que se revelara a olho nu sem artificialidade alguma, mas não foi bem assim que se sucedeu...
Meu int eresse em cultura é jogado ao vento como problema único meu, eu penso que não basta dar-nos cultura, é preciso querer cultura e a maneira como se trata isso às vezes pode significar um pequeno pedacinho de toda essa imensidão a se perder. O que fazemos hoje, tenho certeza cada dia mais reflete no nosso amanhã. É claro também que um fato isolado não diz muito, mas se fossemos tratados como seres que importam o mundo poderia ser outro e não esse.
Mas vamos de fato ao que interessa, os percalços da vida a gente passa por eles e deixa-os atrás. Lutando para que num futuro próximo quem sabe seja diferente. Fernanda entra em cena como quem não quer nada e por incrível que pareça, só o seu sentar me fez arrepiar da cabeça aos pés. Que força terá aquela mulher? Não gosto de microfones, mas dada a grandiosidade do teatro penso ser uma alternativa possível. A voz me é tida como algo com tamanha intensidade, que frente a uma tecnologia abrupta se perde em meio a tons sempre audíveis. Eu me encontrava na fileira ”l”, imaginem a distância que eu estava do palco... Mas pude ver os gestos esplendorosos de uma mulher vivaz, que sente, que fala, que ama e que mente, pois existem circunstâncias na vida que a palavra ora dita desmedida se vai como se nunca tivesse sido proferida. Eu muito quis ver o olhar daquela monstruosa, no sentido mais belo dessa palavra, mas dada as minhas circunstâncias foi impossível. Eu vivia aqueles momentos com amor, algo se revelara a mim e eu nem era capaz de perceber, só conseguia distinguir que antes era algo que agora já não era mais e isso me trazia um mistério aos pensamentos que só conseguia pensar o que se passou? Que mulher transgressora era aquela, sexo não é só que a palavra permite, vai muito mais além...
Claro que olhando a era digital para ver o que se passava com a nova política “sescial”, pude ler algumas críticas a Fernanda, mas quer saber, me assusta como essas pessoas engrandecem um ser que já é belo por natureza, e o que pesa não é essa mulher ter hoje quase 80 anos, nem ser uma dama do teatro brasileiro, muito menos simplesmente a vã questão o marido dela se foi, que pequenez barata...
É o que ela faz com aquilo que a atormenta... É belo porque sempre foi assim, lutou e luta pelo o que acredita... A dor se transforma em luta... Ama sem medida... Chora com certeza do que foi já não o é mais... Transgride sem estrutura... Sorri com loucura... Não se esconder vira questão de vida... Vida essa que não é temida, mas simplesmente percebida com toda a graça que ela tem.
Acaba-se a peça e minha vida também é um pouquinho interrompida... Mas fica a certeza do que ainda terei que construir, o que está por vir...
Nessas horas poucos devem ter chegado até aqui, mas ficam os meu desejos!

Observação inútil: me foi informado que abaixo de minha cadeira eu encontraria cupons para trocar por livros ao final do espetáculo, até agora me pergunto que cupom e que livro são esses, só eu não os vi?